Metodologia
Transparência total sobre o que este teste é, como foi construído e onde estão seus limites.
O que este teste é e o que não é
Nossos questionários são ferramentas de autoconhecimento e organização de observações sobre traços associados ao espectro autista. Eles foram criados pela nossa equipe a partir do conhecimento científico público sobre o espectro, e são um ponto de partida estruturado para uma conversa: com você mesmo, com sua família e, principalmente, com um profissional de saúde.
Eles não são instrumentos clínicos validados, não geram diagnóstico e não substituem avaliação profissional. Somente um profissional habilitado pode confirmar ou descartar um diagnóstico.
A base conceitual: os critérios internacionais
O espectro autista é definido pelos dois principais sistemas de classificação usados no mundo:
- o DSM-5-TR, da Associação Americana de Psiquiatria (2022), e
- a CID-11, da Organização Mundial da Saúde (código 6A02).
Ambos descrevem o espectro a partir de dois grandes conjuntos de características:
- Diferenças na comunicação e na interação social, que aparecem na reciprocidade das trocas (iniciar, manter e responder a interações), na comunicação não verbal (contato visual, gestos, expressões) e na construção e compreensão de relacionamentos.
- Padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades: movimentos ou falas repetitivas, insistência na mesmice e apego a rotinas, interesses intensos e focados, e reatividade aumentada ou diminuída a estímulos sensoriais.
Esses critérios são conhecimento científico descritivo, publicado e ensinado abertamente. Foi sobre eles que construímos o teste.
Os 5 domínios do nosso teste
Para tornar o resultado mais útil do que um número único, reorganizamos esses critérios em cinco áreas de análise, e cada pergunta do teste pertence a uma delas:
| Domínio | O que observa | Origem nos critérios |
|---|---|---|
| Comunicação e interação social | Reciprocidade, contato visual, leitura de sinais sociais, energia gasta em interações | Critério A (DSM) |
| Rotina e previsibilidade | Reação a mudanças, rituais próprios, apego à mesmice | Critério B (insistência na mesmice) |
| Sensorial e movimento | Sensibilidade a sons, luzes e texturas; movimentos repetitivos de autorregulação | Critério B (reatividade sensorial e estereotipias) |
| Interesses e foco | Intensidade e profundidade dos interesses, hiperfoco, atenção a detalhes e padrões | Critério B (interesses restritos e intensos) |
| Flexibilidade | Literalidade, adaptação a regras que mudam, esforço consciente para “traduzir” o social | Interseção dos critérios A e B |
O teste de bebês (16 a 30 meses): marcos do desenvolvimento
Para a primeira infância, as perguntas se baseiam nos marcos do desenvolvimento sociocomunicativo amplamente divulgados por programas públicos de saúde, como o “Learn the Signs. Act Early.” do CDC (o centro de controle e prevenção de doenças dos EUA) e as cadernetas de acompanhamento infantil.
Elas também se apoiam na literatura científica sobre sinais precoces, que há décadas aponta os mesmos comportamentos-chave: responder ao próprio nome, apontar para compartilhar interesse, seguir o olhar e o apontar do adulto, atenção compartilhada, imitação de gestos, brincadeira de faz-de-conta e interesse por outras crianças.
Nessa faixa etária, nosso resultado não fala em “risco”: ele organiza as observações dos pais em “pontos de atenção” e orienta a conversa com o pediatra, que é quem pode avaliar de verdade, considerando audição, linguagem e o ritmo próprio de cada criança.
Adolescentes e adultos: o que a pesquisa recente acrescentou
A última década de pesquisa revisada por pares ampliou muito a compreensão do espectro depois da infância, e nossos questionários incorporam esses temas:
- Camuflagem social (“masking”): o esforço consciente de imitar, ensaiar roteiros e “atuar” para se encaixar, e o custo de energia disso. É uma linha de pesquisa consolidada e especialmente relevante para meninas e mulheres, que historicamente passam despercebidas pelos rastreios tradicionais.
- Exaustão social e necessidade de recuperação após interações, mesmo as agradáveis.
- Processamento sensorial em adultos: sensibilidade a sons repetitivos, luzes e texturas, e também a percepção reduzida de sinais internos como fome, frio e dor.
- Hiperfoco e a relação intensa com temas de interesse.
Como a pontuação funciona (transparência total)
- Bebês: 18 perguntas com Sim, Não e “Ainda não sei dizer”; cada resposta na direção do traço soma 1 ponto (0 a 18), com três faixas de leitura. A opção de não saber não pontua, de propósito: a maioria das perguntas dessa idade pontua no “Não”, então obrigar a dúvida a virar “Não” inflaria o resultado de quem só está inseguro.
- Crianças e adolescentes: 28 afirmações em escala de frequência de 4 pontos (0–3), somando 0–84.
- Adultos: 40 afirmações em escala de concordância de 4 pontos (0–3), somando 0–120.
- Parte dos itens é redigida na direção contrária (itens reversos) e tem a pontuação invertida, uma prática padrão para reduzir respostas no “piloto automático”.
- Além do total, calculamos o percentual de cada um dos 5 domínios, que alimenta o gráfico e as abas do seu relatório.
- Sobre as faixas de nível: nossas faixas são divisões proporcionais da pontuação, criadas para organizar a leitura do resultado. Elas não são pontos de corte clínicos validados em pesquisa. É exatamente por isso que o resultado fala em “traços” e “áreas de atenção”, nunca em probabilidade de diagnóstico.
Limitações que fazemos questão de declarar
- Este é um questionário autoral, ainda sem validação psicométrica (estudos de amostra, sensibilidade e especificidade). Temos a intenção de conduzir essa validação com parceiros especializados.
- Autorrelato e relato dos pais têm limites naturais: humor do dia, interpretação das perguntas e conhecimento sobre a criança influenciam as respostas.
- Traços aqui medidos também aparecem em outras condições (ansiedade, TDAH, questões de audição e linguagem) e na população geral. Pontuação alta não significa autismo; pontuação baixa não o descarta.
- O teste não considera histórico de desenvolvimento, contexto clínico nem observação direta, que são os pilares de qualquer avaliação real.
Nossos compromissos
- Nunca chamar o resultado de diagnóstico.
- Sempre orientar o caminho da avaliação profissional (e incentivar levar o relatório à consulta).
- Tratar suas respostas como dados sensíveis, com consentimento explícito e direito de exclusão (LGPD).
- Atualizar este documento sempre que o método evoluir.
Referências de leitura
- Associação Americana de Psiquiatria. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR) (2022).
- Organização Mundial da Saúde. CID-11, Transtorno do Espectro do Autismo (6A02).
- CDC. Learn the Signs. Act Early., marcos do desenvolvimento infantil (material público).
- Literatura revisada por pares sobre camuflagem social, sinais precoces e processamento sensorial no espectro (revisões acessíveis podem ser encontradas em bases abertas como SciELO e PubMed).
Este teste é uma ferramenta de triagem e autoconhecimento. Ele não substitui avaliação médica ou psicológica profissional. Somente um profissional habilitado pode confirmar ou descartar um diagnóstico clínico.